quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Do Baú - A Garçonete do Pouso fora

Iniciando o resgate de alguns relatos do passado, dou seja do Baúy mesmo !...  Este do José Ilton.
Fotos do arquivo de Ishida-san !!! 
Nota: CVV é o Clube de Vôo a Vela de São José dos Campos

IRRECUPERAÇÃO
Há males que vêm para bem. Verdade. No entanto, neste mundo de caminhos
tortuosos onde os contrários por vezes se fundem (serão as tais linhas
tortas pelas quais Deus escreve certo?), pode acontecer que haja bens que
venham para mal. Você duvida? Pois então ouça o acontecido:
Voltemos a 1967, ano em que aconteceu um (mais um) inesquecível Campeonato
de Vôo a Vela, em Ribeirão Preto. 


Sede antiga do Ac de Bauru em ... ????

Naquele tempo, o CVV comparecia em peso
com quase todos seus planadores, rebocadores, carretas, pessoal (o Bruno, o
Lafaiete, o Arthur e tantos outros que deixaram boas recordações). Havia a
elite dos pilotos, olimpicamente instalados nos melhores planadores, e a
ralé - muito mais divertida - da qual eu fazia parte. Eram o Renato, o
Clark, o Mendes, o Groman, e muitos mais.

Renato era um jovem piloto do CVV ainda pouco experiente, mas dotado de uma
formidável habilidade para voar. Algum tempo depois ele faria um memorável
vôo de São José a Bauru pilotando o PBM, um dos nossos gloriosos Olympias,
atravessando a Serra da Mantiqueira em térmicas secas, num dia em que
prudentemente refuguei a bordo do PBU, que era o nosso BN-1.

Olympia PT-PBM

Ele vivia sempre num altíssimo astral e esbanjava simpatia: era um
companheiro muito prezado por todos, incluídas aqui as mocinhas casadoiras
da São José de então, que tinham nele um atencioso confidente...
Pois bem, numa das provas daquele Campeonato - não me lembro mais de qual,
sei que passava perto ou por cima de Mococa - quase todos os vôos foram
interrompidos por CB's que inundaram as rotas e apagaram as térmicas. Renato
teve de pousar o PAS num campo arado de uma fazenda perto daquela cidade.
Contato com Ribeirão, recuperação por carreta. Não, não seria possível
recuperá-lo no mesmo dia, havia muitos planadores pousados fora e poucas
carretas. Que dormisse mesmo por lá, a recuperação iria no dia seguinte.
Desolado, Renato procurou os da fazenda e pediu pousada.
- Não temos alojamentos disponíveis, foi a resposta do administrador, a
menos que você não se importe de dormir no quarto da garçonete, que trabalha
até tarde e não se incomodaria com sua presença.
Renato não titubeou e aceitou. Até hoje não sabemos por que raios havia uma
garçonete naquela fazenda, mas o fato é que havia, e a noite prometia ser
gloriosa. Tomou um banho, jantou na sede e, a tempo, acomodou-se na quarto
da garçonete onde, felizmente, havia uma única cama...
Passaram-se algumas horas e a garçonete não aparecia. Renato começou a ficar
ansioso além do curioso que estava já havia muito... De repente, um coral
afinadíssimo gritou lá de fora, em uníssono:
- Renato! Renatooo!
Abriu a janela e, decepção mortal!, topou com o Arthur, o indefectível jipe
do CVV, a carreta universal e uma garbosa equipe de recuperação!
- Vão embora! Não quero ser recuperado! Voltem amanhã! Seus...
Não adiantou. Havia sido feita uma mudança nos planos de recuperação, a dele
tinha sido antecipada. Vários outros planadores estavam ainda nos pastos,
não havia tempo a perder. E Renato teve de embrenhar-se pelos canaviais,
afundar os pés na terra fofa e úmida do campo arado, desmontar o PAS,
colocá-lo na carreta e retornar a Ribeirão de madrugada, enlameado,
frustrado, irritado, revoltado!
Ficou a decepção, a curiosidade não satisfeita, a dúvida e, tenho certeza,
mais uma deliciosa lembrança na alma do meu amigo Renato!


Ilton 10/08/96

2 comentários:

Anônimo disse...

Hahaha!!
Muito bom!!
Esse povo era corajoso em...
Abraço

Athos
Aeroclube de Bauru

Cesar Augustus disse...

A história do "Vôo a Vela" Nacional está sendo recuperada. Parabéns a todos que guardaram os seus báus. Vamos abrí-los e ver se resgatamos a essência do Vôo de Planadores.
Specht PT-PDG, que saudade dess planador, foi o segundo que solei, aqui no Ac. de Tatuí (abril/1995).
Blanik PT-PDC.
Esses planadores, juntamente com outros, formaram a base de todo o vôo a vela.
Vamos recuperar essa história.
Abraços,
Cesinha